BOIÚNAS E 5 MACACOS

A produção de um objeto artístico pode ser entendida como uma maneira de transformar uma pequena porção do invisível, dando a ela uma forma perceptível aos nossos sentidos. É nessa conversa do irracional com o racional que a arte se aproxima de temas da natureza, tanto representando a fauna e a flora, como fazendo uma conexão com a própria natureza humana. É partir desse diálogo que se pode começar a pensar o trabalho de Juliana Brandão.

Através de estruturas de ferro e formas abstratas, Juliana se apropria de uma linguagem contemporânea e globalizada para resgatar uma temática brasileira. A artista utiliza o metal e as pedras brutas, elementos fundamentais da terra, como base de expressão. Cuidadosamente escolhidos, criam um hibridismo de significados e colaboram para uma série de contraposições: o retilíneo e o curvilíneo, o material e o imaterial, o movimento e a retenção. Cada peça adquire uma história, cuja leitura e interpretação depende do espectador. Longe de possíveis clichés, a artista aceita o desafio de deixar-se levar por um sopro de inspiração que começa na natureza, mas acaba atingindo um universo muito mais amplo.

Em 2018, Juliana apresenta a série 5 macacos, um conjunto de peças que evidencia uma característica interessante de suas obras: apesar de trabalhar com materiais estáticos, como a pedra e o ferro, elas adquirem uma ideia de movimento. 5 macacos é formado por estruturas metálicas vazadas e idênticas, cada uma, no entanto, recebe uma pedra bruta em uma altura diferente, proporcionando a sensação de deslocamento desses animais, que agilmente saltam por entre árvores.

Nessa formulação, o caráter não orgânico dos elementos utilizados, assim como a opção por repetir a forma estrutural, levanta um questionamento sobre mecanização e robotização. Da mesma forma, leva a refletir sobre a ideia de simulacro e simulações. Frente ao abuso do homem sobre os recursos naturais e da natureza, até que ponto teremos seres vivos e reais para apreciar? Ou estaria a humanidade rumo a um mundo cujos símbolos têm mais peso que a realidade e onde restará apenas a lembrança do movimento dos “macacos” de maneira artificial? Neste conjunto, a escolha da pedra não se dá por acaso, quase como um antídoto, ao optar pelo quartzo branco, a artista vai de encontro com sua propriedade purificadora que orienta a nossa busca pelo significado e importância da existência.   

5 macacos está diretamente conectada à sua premiada série Boiúnas (2017) e revela consistência no trabalho da artista.

Em Boiúnas, a artista incorpora o imaginário local em uma forma física e evidencia como uma lenda ancestral ainda pode ser atual. Boiúna – a Cobra Grande de corpo brilhante que habita a profundeza dos rios da Amazônia – se transforma, na releitura da artista, em três grandes "amuletos" ou "joias". Essas peças nos convidam a resgatar as nossas raízes, o contato com a terra e sua composição. Aqui a pedra escolhida é a Turmalina, cuja cor escura e brilhosa cria uma correspondência estética com o mítico animal, assim como remete aos rios e igarapés banhados pelo luar. A Turmalina também é conhecida por reduzir os efeitos negativos das ondas eletromagnéticas de celulares e eletroeletrônicos.

Os elementos apresentados em ambas séries nos convidam a refletirmos sobre nós mesmos: Como se proteger em meio a tanta “energia” tecnológica? Como viver mais próximo à terra? Como manter as boas conexões familiares? Como resgatar as raízes e olhar para dentro?

As obras da artista foram produzidas e lançadas inspiradas em um momento pessoal de transformação da artista. Profissionalmente, Juliana é graduada em Artes Plásticas, mas seu contato com áreas afins traz influências para sua produção.  De um lado, a opção por formas geométricas e sem ornamentos, assim como materiais puros, tem relação com a sua experiência como designer. De outro, seus anos lecionando em universidade a deixou convencida de que tão (ou mais) importante que passar uma mensagem é abrir uma lacuna em branco, possibilitando que cada um, individualmente, possa captá-la e transformá-la.

Helena Wilhelm Eilers

Historiadora de arte e curadora independente